Yamaha RD 350 LC x Honda CR 450 SR, o eterno desafio

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Ame ou deixe-a! Discussão entre os seguidores por causa da Yamaha RD 350 LC e Honda CBR 450 SR
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Bastou postar uma foto da Yamaha RD 350 ao lado da Honda CBR 450 SR na estrada para começar um enorme rebuliço em nossas redes sociais. Tanto no Facebook ou no Instagram, as opiniões se dividiam entre a racionalidade da CBR contra a insanidade da RD. A cada postagem dos seguidores eu e o Diego sentíamos o peso da nossa responsabilidade ao falar dessas máquinas que ainda moram nos corações e mentes dos amantes das máquinas de duas rodas.

Por falar em duas rodas, antes de falar das motos, peço um minuto da sua atenção. Fui leitor e colecionador da Revista Duas Rodas antes de ter uma carreira de sucesso na querida revista. Fiquei por lá quase duas décadas e comecei como freelancer, redator, editor e gerente na Revista Duas Rodas. Tive a sorte de trabalhar testando motos, viajei o mundo para conhecê-las em primeira mão, enfim o emprego dos sonhos. Mas nunca, até sábado passado, havia pilotado a Yamaha RD 350 e a Honda CBR 450. Não fique surpreso, vou explicar.
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Quando entrei na revista, em 1997, essas motos já estavam fora de linha e também “fora dos planos” editorias da publicação. A cada mês tínhamos a missão de testar uma enxurrada de novos modelos que as fábricas lançavam no País e não havia espaço para essas senhoras nas páginas da revista.

Mas no lançamento elas foram as “vedetes” e tinham espaço, muito espaço. A RD por exemplo foi várias vezes capa da Revista Duas Rodas e o primeiro jornalista a rodar em uma foi Josias Silveira. Dois anos depois, em 1986, ela começou a ser vendida no Brasil e foi tema de vários artigos na revista, a maioria assinado por Geraldo Simões e Gabriel Marazzi. Em uma dessas matérias, publicada em setembro de 1986, a revista informava que para acelerar de 0 a 100 km/h eram necessários 5,63 segundos e a velocidade final da RD era de 194 km/h. Já a Honda CBR atingia a máxima de 175,7 km/h e acelerava de 0 a 100 km/h em 6,6 segundos. Números que não confirmamos, afinal agora elas tornaram-se motos de coleção, mas pudemos sentir seu torque e potência – RD 55cv e 4,4kgf.m e CBR 46,5cv e 4,2kgf.m, assim como notamos que são pesadas pro padrão atual, a RD350 pesa 160kg e a CBR 178kg, ambas a seco. Peso de motos 1000cc atuais, que ultrapassam os 200cv.

Eu acho bom

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Discussão aquecida nas
redes sociais.

Quer saber? Eu acho muito legal esse fato de ser “virgem” e não conhecer a pegada de cada moto e assim produzir matérias com o mesmo olhar que tínhamos na Duas Rodas. A cada moto que chegava, com a supervisão do Josias Silveira, nós seguíamos um rotina:

Passo 1) Apresentação da moto numa matéria rápida falando de suas características técnicas e de mercado
Passo 2) Rodando com a moto, muitas vezes rodávamos apenas numa pista ou locação no dia do lançamento o que permitia uma avaliação rápida, apenas um primeiro contato.
Passo 3) Teste ou vigem-teste era a hora de andar na moto e rodar para sentir a moto na prática na cidade, na pista ou na estrada.
Passo 4) Aí era a hora do comparativo, onde ficavam lado a lado o lançamento e seu principal concorrente.
Essa sequencia permitia ao leitor conhecer a nova moto e, depois, saber como ela se comportava ao confrontar a sua concorrente. Com esse critério acreditávamos que a nova moto ganhava o espaço na Revista para ser conhecida dos leitores e logo depois já encarava a sua concorrente natural. Nossa intenção era ajudar o consumidor a fazer a compra mais adequada ao seu perfil. Mas sabíamos que esses grandes duelos nunca tinham um vencedor.

Tira teima

Bem meus amigos, agora que entramos no túnel o tempo e voltamos para os gloriosos tempos dos testes de Duas Rodas, nós do Motos Clássicas 80 resolvemos reeditar um dos maiores comparativos da indústria de motos no Brasil.

Seria uma grande estupidez nossa equipe achar que apenas um matéria seria capaz de por um ponto final nessa disputa. Vamos dividir esse duelo em várias matérias que abordarão a sensação de pilotá-las, características técnicas, dicas e custos de manutenção de cada modelos etc..

Então gira a chave

Na noite anterior eu não dormi bem, ficava pensando como seria rodar na Yamaha RD 350. As matérias que eu li, os comentários dos amigos e a fama herdada da “Viúva Negra” me obrigavam a ter respeito por ela. Não sou um grande piloto, mas já fiz minhas estripulias nas pistas e sei como domar essas feras.
Por outro lado, estava curioso se a Honda CBR 450 era tão acertada e dócil como o próprio Diego falava. Mas a grande pergunta era: Ela “engoliria fumaça” da RD?

Sábado logo cedo cheguei na garagem e o Diego já tinha calibrado os pneus, correntes lubrificadas e vamos para a estrada. Ao subir nas motos já surge a grande diferença, na CBR basta um toque no botão para acordar o motor enquanto a RD pede uma “patada” de leve para acionar seu propulsor.
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 A tanque da CBR 450 tem capacidade para 14 litros enquanto na RD cabem 18 . O consumo? Quem se importa…

Pegamos a Fernão Dias e, como fazem milhares de motociclistas, fomos abastecer e tomar um café no posto Frango Assado. Enquanto comia o pão na chapa (sempre quentinho e com uma generosa camada de manteiga que lambuza os dedos) batemos aquele papo falando das motos.
Aos poucos o pátio foi se enchendo de moto e, quando saímos, a turma – em sua maioria com big trails – torceu o pescoço quando o motor dois tempos da RD soltou aquele grito estridente. Passamos devagar a tempo do pessoal curtir o excelente estado das motos e, claro, recebemos vários acenos – bom saber que elas perecem resgatar a essência do motociclismo.

Já na longa reta da Fernão foi possível saber o quanto a CBR é uma moto acertada. Ao assumir o guidão lembra o cockpit dos antigos aviões bimotores com seus mostradores grandes e elegantes enquanto o acabamento do painel esconde fios e cabos. A perfeita proteção aerodinâmica não deixa perceber que os 140 km/h chegam rápidos e os carros vão ficam para trás sem fazer esforço.
Enquanto isso o Diego estava com a RD que gritava gostoso na estrada exalando aquele cheirinho gostoso do óleo 2T.
Sou fã das motos com motor 2T. Já tive Yamaha DT 200 (conhecida comoVan Gogh, lembra?) e com as minhas Agrale 27.5 e 30.0 já viajei muito pelo Uruguai e Argentina – veja matéria aqui no Motos Clássicas 80.
Apesar da sigla SR (que remete a racing) da Honda CBR 450, a posição de pilotagem lembra mais uma sport touring, pois parece permitir longas horas de pilotagem sem cansaço ou dores nas costas, os joelhos ficam naturalmente dobrados enquanto os pés se acomodam nas pedaleiras sem sem esforço – parece que a moto foi feita sob encomenda para mim. Aliás essa é uma das características da Honda a moto “veste o piloto”.

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O cuidado com detalhes e estética da CBR450SR se destaca quando comparado a RD350LC.
Passamos por Bragança e FINALMENTE chegou a minha vez de conhecer a RD 350, será que sua fama se justifica? Bastou sentar na moto para perceber que a filosofia da Yamaha é totalmente diferente da Honda em relação àquele produto. O banco mais estreito permite apertar o tanque com os joelhos que vão mais dobrados permitindo escorregar de lado com mais facilidade. Basta uma pedalada para acordar o motor.
Primeira, segunda, terceira e eu entro numa dimensão diferente, a Yamaha parece falar para você “quer se divertir? Então acelera”. É impossível ser racional a bordo de uma RD 350, a mão direita quer torcer cada vez mais o cabo do acelerador enquanto o motor chegam perto dos 9.000 giros e o velocímetro se aproxima dos 170 km/h facilmente. A cada redução de marcha, você aponta a frente da RD 350 e toma um coice do motor. Que sensação legal!
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Tudo na RD nos remete as corridas, enquanto a CBR dá um show com seu design e acabamento.

Lembra que falei do painel da CB remete a um luxuoso painel de avião bimotor, pois bem o painel da RD lembra um avião de guerra. Cabos expostos e um buraco por onde você vê o para lama dianteiro lembram que ela é um moto rústica, feita para acelerar e sentir adrenalina.

Por falar em Adrenalina, quando saímos na altura de Vargem, em direção a Joanópolis, a RD mostrou que não gosta muito de estradas travadas. Em meio a caminhões lentos, carros velhos, curvas, travadas e pista escorregadia não consegui me entender bem com ela. A ausência de freio motor exigia o uso constante dos freios, os braços começaram a reclamar junto com o ponteiro da temperatura que começa a se aproximar da faixa vermelha. O jeito era dar um respiro…
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Nas curvas da Serra da Mantiqueira, aos pés do “Gigante Adormecido”
(note o formato da montanha) pudemos avaliar as duas motos.

Havia outro problema muito sério que não me deixou muito à vontade naquela condição. Veja nas fotos as condições da moto que pertence ao acervo dos Motos Clássicas 80, qualquer deslize e seria um grande problema conseguir peças para a velha senhora. Nossa RD é ano 1987 (a primeira série). Diferentemente dos testes feitos pelas revistas no lançamento – quando não havia preocupação com quedas e os pilotos podiam chegar ao limite das motos como faziam Geraldo Simões e Gabriel Marazzi. Nós temos que levar em consideração que um tombo, por menor que seja, causará prejuízos para a moto que está em condição exemplar.

Paramos para uma seção de fotos e trocar de motos. Ainda sentindo a adrenalina da RD em minhas veias subi na CBR e parece que recebi uma dose de calmante. Seguro e suave contorna as curvas sem qualquer preocupação. Essa sensação remeteu ao teste comparativo da Duas Rodas (edição 171, de 1989, assinado por Gabriel Marazzi) onde o piloto Gilmar Vidal lembrou a que CBR é muito mais equilibrada e tem melhor comportamento nas curvas do miolo de Interlagos, “por conta da sua ciclística e freios mais eficientes”. Voltando para a estrada o Diego seguia na frente esparramando o cheiro de óleo 2T nas casinhas à beira da estrada.

Ao chegarmos na estrada que liga Joanópolis a Piracaia, suas curvas abertas com raios longos fazem a alegria de quem está com a RD. É possível chegar ao limite reduzindo as marchas a cada retomada e extraindo tudo do motor. Aquela estrada parece ser feita sob medida para andar de RD 350, quem souber tocar a moto vai curtir demais. O Diego subiu na frente e quando o encontrei estava com um sorriso na cara e tremendo de emoção. “Que tesão Cição, essa moto é muito louca” gritou o Diego olhando para a RD no acostamento.
Essa foi a mesma frase publicada na revista Motor Sport Atual pelo Jornalista Celso Miranda que pilotou a moto campeão da  Copa RD 350 em 1988 “É UM PUTA TESÃO, pra usar o português correto”.

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Ao passar pela ponte sobre a principal represa do sistema cantareira, tivemos a grata surpresa de
vê-la bem cheia! 

Será que é isso mesmo?

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Quando subi novamente na RD e comecei a contornar as curvas, aos poucos fui me entendendo com ela e começamos a “conversar”. Aquele motor gritando no ouvido enquanto o ponteiro do conta-giros dança na sua frente é um instante mágico. Lembrei dos velhos pilotos que encaravam as curvas pelo mundo a bordo das ardidas TZ 350 que fizeram a fama da Yamaha pelo planeta.

Mas veio uma lembrança oposta, e ainda mais legal como o aventureiro Osmar Bargas que cruzou a Cordilheira dos Andes de RD em 1987.
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O Aventureiro Osmar Bargas rodou pela América do Sul de RD em 87 – acha que RD é frágil?
Chegando de volta em Atibaia, a RD já era “minha” e lembrei do que escreveu Marc Petrier no lançamento do modelo na revista MotoShow “é uma máquina extremamente ágil, mas exige uma certo período de aprendizado do piloto” e foi assim mesmo…
Porém encaramos um trânsito chato – por conta de algumas obras – e percebi que a RD 350 não tem muita paciência com trânsito travado, Nessa condição a CB parece tranquila como se estivesse em “casa”.
Ao guardar as motos, fui verificar o quanto elas custavam em 1989. O preço de tabela da CBR era de NCz$ 35.667 enquanto a RD custava NCz$ 22.936 (valores são apenas uma referencia, pois na época de inflação eles mudavam todo mês) ou seja,  a moto da Honda custava quase o dobro da Yamaha.
Devolvemos as motos para a segurança da garagem abrimos uma cerveja, tiramos a jaqueta nos deparamos com o enorme desafio que transmitir aos amigos do Motos Clássicas 80 o que é pilotar essas motos.
O desafio é motivado pela discussão entre os seguidores, as motos são tão diferentes quanto seus admiradores. A Yamaha RD 350 LC “exige que o piloto trabalhe” por ela para conseguir seu melhor que é o excelente desempenho e prazer. Lembra dos contos do Nelson Rodrigues que relatam amantes insaciáveis em relação a presentes e sexo.
Já a Honda CBR 450 SR se entrega ao piloto e faz tudo por ele, parafraseando Nelson Rodrigues como uma esposa “recatada e do lar”. Essa opinião foi a mesma do jornalista Roberto Araújo, que já foi meu chefe na Duas Rodas, no comparativo daquela revista na edição 190.
Mas a história não terminou, teremos novas matérias falando individualmente dos modelos e como as características técnicas se traduzem em reações tão diferentes de cada moto. Como disse lá no começo, o desafio entre a Honda CBR 450 SR e a Yamaha RD 350 LC está longe de terminar…
Enquanto isso, acompanha nosso Bate Papo sobre as motos, no vídeo abaixo.

6 thoughts on “Yamaha RD 350 LC x Honda CR 450 SR, o eterno desafio

  • MT interessante está matéria !!
    Mas como é difícil definir este a emoção de abrir o gás da RD !!
    Respeito as motos Honda mas sou RDzeiro !!!!

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  • Linda matéria do Cícero. Eu não as considero rivais, pela simples concepção mecânica. CBR tem que estar bem preparada para acompanhar junto a RD, mas ela é até um pouco mais confortável. Aproveitem isso, desfrutem do passeio, curtam as curvas da estrada, e estarão felizes. Detonar pra quê? Curtam ambas com sorriso no rosto, como eu, sorrindo de orelha a orelha com minha CB 450 TR. A RD, se bem amaciada, passa dos 200 reais. Vi isso com um amigo nosso, com uma azul ano 88, linda, e mesmo aqui em São Carlos, mais de 800 metros acima do nível do mar, chegou à 202, comigo em cima, na época, com pesados 88 kilos. Copa RD 350LC? Um sonho. Sim, ela sai na frente da CBX 750, mas depois que deu o que tinha que dar, a 7 galo passa e vai embora. Detalhe sem muita importância, já que uma é esportiva verdadeira, a outra virou um Opala 4 portas com ar condicionado. Parabéns novamente pela matéria.

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  • Excelente comparativo. Dois grandes profissionais e duas grandes motos da época.
    Parabéns. Viajei no tempo. Como nós nós ve tempos em que colecionava a revista duas rodas.
    Geraldo Corrêa.:

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  • Excelente artigo!
    Tenho uma RD-350 89, e como já expliquei ao Diego, também cresci pilotando em Atibaia e por isso conheço o percurso descrito no texto.
    Gostaria de qualquer dia poder visitar a Garagem e dar um rolé com vcs.
    Grande abraço!

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  • Cícero, o prazer de ler uma reportagem bem escrita ao velho e apreciado estilo 2Rodas, "datilografada" por quem entende do assunto… das duas, só andei na RD, isso na época do lançamento, e ainda assim poucos km, só pra experimentar a moto do amigo mesmo, mas até hj sinto a adrenalina ao lembrar da acelerada… bem diferente da XL 250R que eu tinha na éopca… Abraço!

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